Ibiza está infestada de cobras? O que deves saber antes de planeares as tuas férias

Durante décadas, Ibiza foi conhecida como a ilha das praias paradisíacas, dos pores-do-sol espectaculares e da vida nocturna. No entanto, havia outra peculiaridade que a distinguia de muitos outros destinos mediterrânicos: a ausência quase total de cobras.

Atualmente, a situação é completamente diferente.

Nos últimos anos, as redes sociais têm divulgado imagens e vídeos de serpentes avistadas ao longo de caminhos, no campo e até no mar de Ibiza. Alguns exemplares foram filmados a nadar perto de praias ou a atravessar extensões de mar para chegar a pequenos ilhéus nas Ilhas Baleares.

Mas o que é que se passa realmente em Ibiza? De onde vêm estes répteis? São perigosos para os turistas? E quantas destas serpentes existem atualmente na ilha?


Colubro Ferro di Cavallo: a serpente que invadiu Ibiza e as Ilhas Baleares

Quem é esta cobra? A cobra-ferradura (Hemorrhois hippocrepis) chegou acidentalmente a Ibiza no início dos anos 2000, escondida nas raízes de oliveiras ornamentais importadas da Península Ibérica.

Qual é o seu tamanho? Em Ibiza, estas serpentes crescem de forma extraordinária: podem ultrapassar os 2 metros de comprimento, pesando duas vezes e meia mais do que os exemplares peninsulares, que raramente ultrapassam os 1,8 metros. Alguns exemplares foram encontrados com a espessura do pulso de um adulto.

As cobras-ferradura de Ibiza são perigosas para os seres humanos? Não – esta é uma espécie não venenosa e completamente inofensiva para as pessoas. O verdadeiro perigo diz respeito ao ecossistema local, com várias espécies endémicas cada vez mais em risco.


Uma ilha que não teve cobras durante séculos

Durante grande parte da sua história, Ibiza esteve praticamente livre de cobras.

O isolamento geográfico permitiu o desenvolvimento de um ecossistema único, caracterizado pela presença da lagartixa Pitiuse (Podarcis pityusensis), uma espécie endémica que vive apenas em Ibiza, Formentera e nos pequenos ilhéus circundantes. Durante milhares de anos, este réptil prosperou sem quaisquer predadores naturais.

O equilíbrio ecológico da ilha manteve-se praticamente inalterado até ao início dos anos 2000, altura em que um acontecimento aparentemente inócuo mudou para sempre o destino da fauna local.

Quando é que as cobras chegaram a Ibiza?

Os estudiosos situam a chegada das primeiras serpentes entre 2003 e 2004.

Naqueles anos, numerosas oliveiras centenárias foram importadas de Espanha continental para decorar vivendas, estâncias e jardins privados durante o boom da construção na ilha. Escondidas nas cavidades dos troncos e entre as raízes, algumas cobras também viajaram sem saber.

Os primeiros avistamentos oficiais datam dessa época e, inicialmente, não causaram qualquer preocupação especial. Os répteis pareciam estar confinados a algumas zonas limitadas e ninguém imaginava que, em vinte anos, se tornariam um dos principais problemas ambientais das Ilhas Baleares.

Que espécies de serpentes chegaram às Ilhas Baleares?

Ao contrário do que se possa pensar, não existe uma espécie única.

Introduções acidentais trouxeram várias serpentes da Península Ibérica para Ibiza, incluindo:

  • o pombo-ferradura (Hemorrhois hippocrepis);
  • o colúber de escamas (Zamenis scalaris);
  • o colubo de Montpellier (Malpolon monspessulanus).

Destas espécies, o culverin ferradura é a que melhor se adaptou ao ambiente local e representa atualmente a maioria dos avistamentos.

A cobra-ferradura é uma serpente originária do sul de Espanha, de Portugal e do Norte de África.

O seu nome deve-se a uma mancha escura caraterística em forma de ferradura na parte de trás da cabeça. Os adultos podem ultrapassar um metro e meio de comprimento e, nalguns casos, atingem tamanhos próximos dos dois metros.

É uma cobra:

  • não é venenoso;
  • muito rápido;
  • excelente trepador;
  • excelente nadador;
  • ativa principalmente durante o dia.

Não é considerado perigoso para os seres humanos e geralmente tende a fugir quando se sente ameaçado.

Porque é que a população de cobras em Ibiza cresceu tão rapidamente?

Uma vez em Ibiza, as cobras encontraram condições quase ideais.

A ilha era rica em presas e praticamente desprovida de predadores naturais capazes de conter a sua propagação. Além disso, o clima ameno das Ilhas Baleares favorece a sobrevivência de espécimes jovens.

Cada fêmea pode pôr vários ovos por ano e, com o tempo, a população começou a expandir-se cada vez mais rapidamente.

A partir de 2010, os residentes começaram a registar uma diminuição do número de lagartos e um aumento constante do número de serpentes avistadas em áreas cada vez mais distantes do local onde foram inicialmente observadas.

Quantas cobras existem hoje em Ibiza?

É impossível determinar o número exato.

No entanto, os dados recolhidos pelas agências ambientais mostram claramente a extensão do fenómeno. Nos últimos anos, milhares de espécimes foram capturados através de programas de monitorização e confinamento.

De acordo com algumas estimativas, o pombo-ferradura ocupa atualmente uma grande parte do território de Ibiza, com uma presença que pode afetar cerca de 90% da ilha.

Apesar das campanhas de captura, a população continua a ser numerosa e disseminada.

Será que as cobras de Colubro nadam mesmo no mar entre Ibiza e as Ilhas Baleares?

Sim.

E este é provavelmente o aspeto mais surpreendente de todo este caso.

Numerosos avistamentos documentados mostram exemplares a nadar em mar aberto. Os cientistas registaram vários casos de serpentes observadas a centenas de metros da costa.

Este comportamento permite-lhes chegar a pequenos ilhéus que, até há poucos anos, eram refúgios seguros para a fauna local.

A capacidade de atravessar o mar é uma das razões pelas quais é particularmente difícil travar a sua expansão.

A verdade sobre as serpentes que nadam em Ibiza: não são serpentes marinhas

Um dos mal-entendidos mais comuns diz respeito à natureza das serpentes avistadas nas águas de Ibiza. Muitos turistas, ao verem os vídeos publicados nas redes sociais, pensam que estão a ver serpentes marinhas semelhantes às que vivem nos oceanos tropicais.

Na realidade, não é esse o caso.

Os répteis que estão a colonizar Ibiza são serpentes terrestres. Habitam normalmente no campo, entre muros de pedra seca, em zonas rochosas e em zonas arborizadas da ilha.

A sua particularidade é outra: são excelentes nadadores.

Os cientistas documentaram vários casos de exemplares capazes de atravessar extensões de mar aberto para chegar a pequenos ilhéus vizinhos, contribuindo assim para a disseminação da espécie no arquipélago.

As serpentes marinhas verdadeiras pertencem a diferentes grupos zoológicos e vivem principalmente nas águas tropicais do Indo-Pacífico. Não existem populações naturais de serpentes marinhas no Mar Mediterrâneo.

Por esta razão, embora possa acontecer avistares uma cobra a nadar perto da costa, não se trata de uma espécie marinha nem de um animal particularmente perigoso para os banhistas.

Conseguem chegar às praias?

Sim, pode acontecer.

Nos últimos anos, alguns banhistas têm relatado a presença de serpentes junto à costa ou perto de pequenas embarcações. No entanto, trata-se de incidentes esporádicos que atraem muita atenção dos meios de comunicação social precisamente por serem invulgares.

O pombo-ferradura não procura o contacto com os seres humanos e, na maioria dos casos, tende a afastar-se rapidamente quando se apercebe da presença humana.

Será que os turistas correm mesmo riscos?

A resposta curta é não.

Apesar das imagens impressionantes que circulam na Internet, as cobras de Ibiza não são consideradas perigosas para os seres humanos. Não são serpentes marinhas venenosas nem espécies agressivas.

Os encontros com turistas são geralmente inofensivos e milhões de pessoas continuam a visitar a ilha todos os anos sem qualquer problema relacionado com a sua presença.

Por muito impressionante que seja observar uma cobra a nadar nas águas cristalinas de Ibiza, o fenómeno é sobretudo uma questão ambiental e não uma verdadeira ameaça ao turismo.

A verdadeira vítima: o icónico lagarto de Ibiza

A principal consequência da invasão diz respeito à biodiversidade local.

Os lagartos de Pitiuse constituem uma parte importante da dieta da cobra-ferradura. Em muitas zonas da ilha onde as serpentes se estabeleceram há muito tempo, a presença de lagartos diminuiu drasticamente.

Algumas populações locais chegaram mesmo a desaparecer, o que levou os especialistas a lançar o alarme sobre a conservação de uma das espécies emblemáticas do arquipélago.

Conseguirão as autoridades de Ibiza impedir a invasão de cobras?

Nos últimos anos, as Ilhas Baleares realizaram numerosas campanhas de controlo e de captura.

Milhares de armadilhas são colocadas todos os anos para conter a propagação de cobras e proteger as áreas mais sensíveis à natureza.

No entanto, os especialistas acreditam que a erradicação completa é atualmente muito difícil. O principal objetivo é limitar o crescimento da população e salvaguardar as últimas áreas onde o lagarto endémico ainda consegue sobreviver.

Ainda vale a pena visitar Ibiza?

Podes crer.

A presença de cobras é um problema ecológico grave, mas não constitui uma ameaça real para quem escolhe passar férias na ilha.

Praias espectaculares, enseadas escondidas, águas cristalinas, pores-do-sol inesquecíveis e uma atmosfera animada continuam a fazer de Ibiza um dos destinos mais populares do Mediterrâneo.

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A história das cobras de Ibiza não é a de uma ilha perigosa, mas a de um ecossistema frágil que está a lidar com as consequências de uma introdução acidental que ocorreu há pouco mais de vinte anos. Uma história que nos recorda quão delicado pode ser o equilíbrio natural das ilhas e quão facilmente pode ser alterado pela intervenção humana.

Ligações úteis: Portal oficial para a transparência e o acompanhamento dos projectos financiados pela Taxa de Turismo Sustentável (ITS) das Ilhas Baleares