Com o calor infernal que assola Roma no verão, parece que tudo na cidade transpira: o asfalto, as paredes, os turistas na fila do Coliseu. Mas há um monumento antigo, do qual hoje restam apenas alguns vestígios, que, segundo a tradição, suava mesmoágua, uns bons dois mil anos antes de alguém inventar o ar condicionado. Chama-se Meta Sudans e ficava mesmo ao lado do Coliseu, num dos locais mais fotografados (e menos conhecidos) de Roma.
Uma fonte monumental que hoje só sobrevive na memória e em alguns vestígios arqueológicos, mas que, durante séculos, alimentou uma das imagens mais sugestivas da Roma imperial: a dos gladiadores que, depois de saírem vivos da arena, paravam diante da água da Meta Sudans para se refrescarem e apagarem do corpo os sinais da batalha.
Porque é que se chama Meta Sudans?
O nome já conta toda a história do monumento. «Meta» deriva da forma cónica da fonte, que lembrava as metas dos circos romanos: aqueles pilares em torno dos quais as quadrigas, as carruagens puxadas por quatro cavalos, tinham de contornar durante as corridas.
«Sudans», ou seja, «suado», refere-se, por sua vez, à forma como a água saía da estrutura: não jorrava com força como numa fonte clássica, mas escorria lentamente pelas paredes lisas do cone, como uma camada de suor numa pele aquecida.
Um efeito espetacular que devia ter deixado os romanos de boca aberta: uma grande estrutura de mármore que parecia viva, quase uma montanha de pedra que escorria água sem parar no coração da cidade.
Onde ficava (e onde fica hoje)

A Meta Sudans ficava num ponto estratégico e simbolicamente muito importante da Roma antiga: mesmo entre o Coliseu e o Arco de Constantino, no cruzamento de duas ruas ligadas ao percurso triunfal.
Era também o ponto de encontro de quatro das catorze regiões em que Augusto tinha dividido a cidade, mais precisamente as regiões II, III, IV e X.
A morada atual, para quem quiser anotar, é Piazza del Colosseo, 00184 Roma.
Construída na época flavia, entre 75 e 81 d.C. sob o reinado de Vespasiano e Tito, a fonte tinha entre 16 e 18 metros de altura, com uma base cilíndrica revestida a mármore, decorada com nichos com estátuas de deusas e ninfas, e encimada por um elemento cónico que terminava numa flor ou numa esfera.
No entanto, não era a primeira fonte a ser construída naquele local: por baixo e ao lado da estrutura flavia existia um monumento mais antigo, da época juliano-claudiana, que provavelmente foi destruído no grande incêndio de Roma, em 64 d.C. O próprio Sêneca, numa das suas cartas, faz referência a este conjunto de fontes.
Hoje, quem passeia entre o Coliseu e o Arco de Constantino ainda consegue ver, no chão, a base circular da fonte: alguns tijolos e um vestígio arqueológico que marcam o ponto exato onde ela permaneceu de pé durante quase 1900 anos.
A lenda dos gladiadores e da Meta Sudans
E aqui estamos nós no cerne da história, aquilo que faz da Meta Sudans muito mais do que uma simples ruína arqueológica.
Na tradição popular romana, esta fonte esteve ligada durante séculos aos gladiadores e aos espetáculos do Anfiteatro Flaviano. Conta-se que os homens que sobreviviam aos combates na arena, assim que saíam do Coliseu, vinham mesmo até aqui: à Meta Sudans, a fonte que «suava» água, para encontrar um momento de alívio depois da violência do espetáculo.

*óleo sobre tela
*97,4 x 146,6 cm
*1872
Esta imagem é uma das mais fascinantes que a Roma antiga nos deixou como legado: gladiadores ainda cobertos pela areia da arena, pelo suor e pelas feridas do combate, que param em frente à grande fonte para se refrescarem, limparem o sangue e a poeira do corpo e recuperarem as forças antes de voltarem para os quartéis.
Um contraste quase perfeito entre duas facetas da Roma imperial: por um lado, o estrondo da multidão, o barulho das armas, o medo e a glória da arena; por outro, o silêncio da água que corria ao longo do mármore da Meta Sudans, oferecendo, por alguns instantes, alívio aos protagonistas dos espetáculos.
A localização da fonte torna esta lenda ainda mais marcante. A Meta Sudans ficava, de facto, mesmo em frente ao Coliseu, num dos locais mais importantes da cidade antiga, por onde passavam espectadores, soldados, cidadãos e os próprios protagonistas dos jogos.
Não é difícil imaginar um gladiador vitorioso que, depois de ter sobrevivido ao combate, deixasse para trás o barulho da arena e procurasse alguns momentos de paz diante daquela fonte monumental que parecia respirar água sob o sol romano.
Foi esta imagem, mais do que qualquer outra, que transformou a Meta Sudans na «fonte dos gladiadores».
O mecanismo hidráulico: como é que a fonte «suava» mesmo

Para além da lenda, o funcionamento da fonte era uma pequena obra-prima da engenharia hidráulica romana.
No topo do cone havia uma esfera de bronze cheia de pequenos orifícios. A água, provavelmente proveniente da Água Cláudia ou de um ramal da Água Marcia (as fontes antigas não são unânimes), era impulsionada até ao topo e, a partir daí, saía gota a gota pelos orifícios, escorrendo pelas paredes lisas da estrutura cónica.
O resultado era uma camada contínua de água que cobria toda a superfície do monumento, um efeito bem mais parecido com suor do que com um jato de água.
A fonte funcionou durante séculos, até ao século V d.C., altura em que o assentamento progressivo do vale do Coliseu começou a obstruir os canais de escoamento, deixando-a fora de serviço.
A demolição (relativamente recente)
Aqui, a história toma um rumo mais amargo. A Meta Sudans não ruiu devido a um terramoto nem foi destruída por uma invasão bárbara: sobreviveu, embora reduzida a uma ruína de poucos metros, até ao século XX.
Quem a demoliu definitivamente foi o regime fascista, em 1936, durante as obras de construção da Via dei Trionfi (hoje Via di San Gregorio), no âmbito da grande obra de «demolição» urbanística planeada para celebrar a Roma imperial.
Um paradoxo e tanto: um monumento que simboliza a Roma antiga, destruído em nome da celebração da Roma antiga.
Antes de ser demolida, a Meta Sudans ainda era uma presença familiar na paisagem do Coliseu. Várias fotografias do século XIX e das primeiras décadas do século XX mostram a grande fonte ainda de pé ao lado do Anfiteatro Flaviano, dando-nos uma imagem que hoje parece quase inacreditável.
Como chegar ao Meta Sudans

Chegar ao sítio da Meta Sudans é super fácil, já que faz parte do coração arqueológico da cidade:
A pé: fica no canteiro mesmo a norte do Arco de Constantino, a poucos passos da saída do Coliseu.
- Metro: linhas C e B, paragem Colosseo, a cerca de 3 minutos a pé.
- Autocarros e elétricos: há várias linhas que param na zona da Piazza del Colosseo / Via dei Fori Imperiali.
O que tens de ter em atenção: como é uma área aberta e não está vedada, podes ver as ruínas de graça a qualquer hora do dia, sem precisares de bilhete. Basta saberes onde olhar, porque no meio da multidão é fácil passar por elas sem te aperceberes.
Morada: Piazza del Colosseo, 00184 Roma RM.
Informações e horários: para saberes mais sobre a zona arqueológica à volta, o local a consultar é o Parque Arqueológico do Coliseu Site.
A Meta Sudans dos gladiadores do Coliseu: entre a lenda e a realidade
Da próxima vez que estiveres entre o Coliseu e o Arco de Constantino, com quarenta graus à sombra e a sensação de que toda a Roma está literalmente a suar contigo, pára um instante naqueles poucos tijolos no chão.
Há dois mil anos, nesse mesmo local, uma enorme fonte de mármore fazia exatamente a mesma coisa: suava, gota a gota, sob o olhar de gladiadores, imperadores e cidadãos romanos que, tal como vocês hoje, procuravam um pouco de refresco no coração da Cidade Eterna.

A história dos gladiadores que paravam na Meta Sudans depois dos combates pertence provavelmente mais à lenda do que à documentação histórica. Não temos nenhum testemunho certo que conte este episódio, mas talvez seja precisamente esse o encanto de lugares como este.
Porque algumas pedras não contam apenas o que realmente aconteceu: contam também o que gerações de pessoas imaginaram, transmitiram e sonharam.
É uma cena provavelmente mais lendária do que documentada, mas que resume na perfeição o encanto eterno da Roma dos gladiadores: sangue, espetáculo, glória e aquela linha ténue entre a vida e a morte.
E talvez seja precisamente por isso que, ainda hoje, perante os poucos vestígios da Meta Sudans, quase conseguimos sentir o barulho da multidão do Coliseu, o calor da areia da arena e o lento escorrer da água de uma fonte que, dois mil anos depois, continua a «suar» memória.

